publicado por gondomaralegre2011 | Domingo, 19 Setembro , 2010, 18:26

 

Olá, boa tarde, devo antes de mais confessar a minha aflição pois não estava à espera de falar. E também sou um pouco um autor à procura da personagem, como há pouco foi dito. Mas há duas ou três coisas que eu gostaria de dizer, ia quase dizer duas ou três “bocas” que eu gostava de lançar aqui, se me permitem.

 

Já que fui apanhado de surpresa e estou no palco, começava por contar uma história de teatro - já chego à política, não se assustem - que me contou um actor que está a trabalhar comigo e que fez uma encenação para um grupo de teatro amador. A certa altura, havia um senhor de teatro amador, um apaixonado por teatro mas que não sabia muito bem as convenções do teatro, as regras dos ensaios, nunca cumpria a deixa, o momento em que tinha que falar para o lado ou ouvir o outro, já não sei, nunca cumpria a deixa na altura certa. O encenador, este meu amigo, dizia-lhe uma e outra vez «é naquele momento, senhor». Era um senhor mais velho, portanto ele tinha uma certa cerimónia. «Não se esqueça, naquele momento tem de se virar para o lado e fazer que está a ouvir o outro». Isto, durante vários ensaios, aconteceu muitas vezes até que, não sei, à décima vez, à vigésima vez, o senhor virou-se para este meu amigo, para o encenador, e disse «Olhe, não se preocupe, senhor encenador, que eu depois lá faço».

 

E, à parte a piada, parece-me que a política, a nossa relação com a política hoje, não só da minha geração, não só de pessoas mais novas - embora eu seja um novo com cabelos brancos e barbas já esbranquiçadas - sofre um pouco desta doença, a doença do «eu depois lá faço», como se a democracia fosse naquele dia ir pôr lá uma cruz, e não fosse todos os dias um esforço quotidiano de pensarmos como é que podemos transformar isto para melhor. «Não se assustem, eu depois lá faço».

 

Porque também me fazem a tal pergunta «por que é que te meteste nisto?» «És escritor, (não digo que tenhas “a tua vida organizadinha”), mas por que é que te meteste nisto?» E a resposta é um pouco isto: porque eu sinto que devíamos ir além do «depois lá faço». Devíamos todos os dias, na medida do possível, quando nos convidam, quando temos oportunidade, no nosso bairro, na nossa igreja, na nossa junta de freguesia, no nosso grupo de amigos, seja onde for, fazer política. Nós agora, numa sala, dizemos “política” - e eu tive também agora essa experiência nos ensaios duma peça que mete uma questão política, eu disse “política” - e fica tudo de pé atrás, ou se sai da sala, ou se dá uma gargalhada, como se de repente “política” fosse uma palavra feia, uma palavra proibida. Política e cultura, já agora, que é uma palavra que começa a aparecer sempre entre aspas.

 

Acho que grande parte do nosso esforço aqui, nesta candidatura do Manuel Alegre, tem um pouco a ver com isso, de voltarmos a acreditar na política, voltarmos a usar a política como uma ferramenta, uma arma, não sei se a palavra ainda se pode usar, de transformação da sociedade e do nosso mundo.

 

(Eu tenho que fazer estas pausas que é para pensar onde é que vou a seguir. Se puderem aplaudir nas minhas pausas isso era óptimo, porque assim dá-me tempo.)

 

Depois, além deste sobressalto de alma de voltarmos a acreditar na política, de limparmos um pouco este «mau nome» que a política parece ter nas nossas vidas, não sei como, ou sei, há um outro aspecto que me parece essencial neste gesto político do Manuel Alegre que nós estamos aqui para apoiar. E que tem a ver com uma ideia de transformação, de mudança. Parece-me que esta candidatura é a única, nas presidenciais, que realmente transporta essa ideia, essa bandeira de mudança, essa vontade, a ideia de que realmente o sonho pode transformar, de que a política a sério, como um dia acreditámos, não é um conto de fadas, não é uma coisa do passado, pelo contrário, tem que ser um caminho para o futuro, um corredor para o lugar onde queremos levar Portugal.

 

E, finalmente (antes que eu me torne num actor e ponha alguns actores meus amigos no desemprego, porque isto de autor não está a funcionar) a ideia de uma transformação positiva, de não nos contentarmos com o mero protesto, com a mera conversa de café a dizer «esses malandros», «eles», esses «eles» da política, como se a política fosse destes senhores de gravata e não fosse de todos nós, mesmo destes autores que não se sabem muito bem vestir para estas ocasiões e que não estavam à espera destes holofotes. Uma visão positiva, não só dizer não, que é fácil, estar no café, estar no sofá, a mudar o canal e a dizer «Não!» «Não!» «Não!». A possibilidade de dizermos que sim, que queremos isto, e isso implica necessariamente ideologia, isso implica ideias, isso implica saber para onde se vai e não ver o jogo político como uma espécie de cerimónia de tabuleiro, de silêncios, tabus e pró-formas. Saber que a política é mais do que isso, é saber para onde queremos ir, não é um jogo de salão.

 

E duma coisa eu tenho a certeza: Manuel Alegre não vai ficar preso num silêncio, não vai ficar preso numa redoma de pró-formas de “estabilidade” entre aspas, “estabilidade” com várias aspas. Ele sabe que a palavra pode mudar o Mundo. A palavra é um gesto, quando bem usada, quando usada da forma certa, ao microfone certo (não sei se aqui será o da esquerda se o da direita, vocês dirão).

 

Viva Manuel Alegre, Viva Portugal.

 

Jacinto Lucas Pires

Mandatário Juventude

 

 

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